Archive for the 'Uncategorized' Category

O Lugar da Lembrança

Leitura Dinâmica

Descobertos em 2005, os neurônios-grade registram com precisão nosso deslocamento no ambiente. Sua comunicação direta com o hipocampo fornece dimensão espacial à memória e substrato neural para o conceito de mapa cognitivo.
Revista Scientifc American – por James J. Knierim

No filme Amnésia, o protagonista Lenny, interpretado por Jonathan Nolan, sofre uma lesão cerebral que o torna incapaz de fixar na memória os eventos recentes, problema conhecido como amnésia anterógrada. Os portadores desse distúrbio se lembram de tudo o que aconteceu antes do trauma, mas dali em diante não conseguem mais guardar lembrança alguma. A causa quase sempre é uma lesão do hipocampo, um par de pequenas estruturas fundamentais para a memória, situadas na parte profunda do cérebro. Décadas de pesquisa já mostraram que o hipocampo faz muito mais que simplesmente posicionar no tempo os eventos de nossa vida: ele faz também o registro espacial de nossos deslocamentos juntamente com um conjunto de células descobertas em 2005 e conhecidas como neurônios-grade, encontrados no córtex entorrinal. O resultado é um número enorme de informações que serve como mapa interno onde localizamos os eventos da vida.

Conceitos-chave

- Os neurônios-grade são uma das últimas maiores descobertas das neurociências e retoma a antiga idéia de “mapa cognitivo”, proposta em 1948 pelo psicólogo americano Edward C. Tolman.

- Localizados no córtex entorrinal, os neurônios-grade registram continuamente o deslocamento espacial do organismo e repassam essas informações ao hipocampo, o que dá à memória uma dimensão espaço-temporal.

- Cada neurônio-grade projeta virtualmente no ambiente uma estrutura reticulada de triângulos perfeitamente equiláteros cujos vértices são sensíveis ao deslocamento. O mais surpreendente é que essas células não recebem informação sensorial alguma.

Embora o fenômeno da memória tenha fascinado filósofos, escritores e cientistas por muitos séculos, sua sede física, o hipocampo, só foi conhecida há pouco mais de 50 anos. Sua função ficou clara em 1953, quando o neurocirurgião americano William Scoville removeu boa parte do hipocampo de um paciente para ao tentar aliviar as convulsões epilépticas que ameaçavam sua vida. Após a intervenção, o médico percebeu que o doente não era mais capaz de memorizar informações novas. O caso deu origem a um novo campo de pesquisas que acabaram estabelecendo o hipocampo como uma espécie de codificador de lembranças, registrando continuamente cada instante de nossa vida.

Nos anos 70, outra descoberta alimentou a teoria segundo a qual o hipocampo também codificaria nosso deslocamento no espaço. Em 1971, os neurocientistas John O’Keefe e Jonathan Dostrovsky, ambos da Universidade de Londres, verificaram, em ratos, que alguns neurônios hipocampais exibiam disparos relacionados especificamente à posição espacial do organismo. Essas células de localização, como foram chamadas, apresentavam certos padrões de impulsos elétricos sempre que a cobaia ocupasse uma determinada posição no espaço, e permaneciam sem reação quando o animal se mudava para outro lugar. Resultados semelhantes foram obtidos em experimentos com diversas outras espécies, incluindo seres humanos.

Essas descobertas levaram O’Keefe a propor que o hipocampo seria o lócus neural de um mapa cognitivo do ambiente. As células de localização organizariam vários aspectos da experiência do ponto de vista espacial, codificando os eventos de maneira que as memórias recuperadas tenham uma dimensão espaço-temporal. Tal hipótese vem sendo calorosamente debatida há anos e, mais recentemente, as opiniões têm encontrado um consenso: o hipocampo realmente fornece um contexto espacial vital para a memória episódica. Assim, qualquer de nossas lembranças ocupa algum ponto da linha do tempo, cruzado por uma coordenada no espaço, o que é mais uma forma de tornar cada momento único no sistema mnêmico de cada um.

Apesar das pesquisas e discussões sobre o assunto, os mecanismos precisos pelos quais o hipocampo cria essa representação espaço-temporal da memória permaneceram por muito tempo indecifráveis. Um dos maiores obstáculos era o escasso conhecimento sobre as áreas cerebrais que alimentam essa estrutura com dados sobre o ambiente externo. Na década de 90, alguns trabalhos começaram a sugerir que o córtex entorrinal, adjacente ao hipocampo poderia codificar informações espaciais, ainda que de forma menos precisa que a das células de localização hipocampais.

Essa idéia foi virada do avesso com a descoberta, em 2005, dos neurônios-grade, situados no córtex entorrinal medial e descritos numa série de artigos dos neurocientistas Edvard Moser e May-Britt Moser, da Universidade Norueguesa de Ciência e Tecnologia. Ao contrário da célula de localização hipocampal, que dispara quando o organismo ocupa um lugar particular, cada neurônio-grade emite seus disparas quando o animal estiver em qualquer um dos vários pontos de uma grade hexagonal imaginária e surpreendentemente uniforme como se cada um deles estivesse ligado a vários ladrilhos espaçados por distâncias regulares. Os locais que ativam um dado neurônio-grade se apresentam distribuídos num padrão de triângulos equiláteros que, como num mosaico, cobrem inteiramente uma espécie de assoalho virtual do ambiente.

Imagine dezenas de pratos redondos colocados lado a lado, de tal forma que cada um deles é cercado por outros pratos equidistantes este arranjo mimetiza o padrão de disparo vinculado a qualquer neurônio-grade. Quando o rato se move pelo assoalho, um neurônio-grade dispara a cada vez que ele pisa perto do centro de um prato. Enquanto isso, outras neurônios-grade estão associados aos seus próprios arranjos hexagonais, que se sobrepõem entre si. Grades de células vizinhas são de dimensões similares, mas ligeiramente deslocadas umas das outras.

• Bússola mental

Segundo Edvard Moser, esses neurônios-grade são provavelmente os componentes centrais de um mecanismo cerebral que atualiza constantemente o sentido de localização do animal, mesmo na ausência de informações sensoriais externas. É quase certo que eles constituam o aporte básico de dados espaciais que o hipocampo usa para criar o padrão de disparos altamente específicos e dependentes de contexto de suas células de localização.

Essa é uma das descobertas mais extraordinárias da história desde que se começou a fazer registros da atividade elétrica de células cerebrais isoladas. Quando li pela primeira vez o artigo que anunciava os neurônios-grade, percebi imediatamente que estava diante de um trabalho de importância histórica nas neurociências. Nunca ninguém havia descrito uma propriedade da resposta neural que fosse geometricamente tão regular, cristalina e perfeita.

Meu entusiasmo tem um pouco a ver com a simplicidade do padrão de resposta dos neurônios-grade. Mas também se explica pela importância desse passo na pesquisa sobre o hipocampo e a formação da memória episódica. As evidências mostram que tipo de informação é codificado naquele que é um dos maiores fornecedores de dados para o hipocampo. Partindo dessa premissa, podemos começar a criar modelos mais realistas sobre os cálculos feitos nessa região do cérebro e entender as propriedades mais complexas desses mecanismos. Diferentes subconjuntos de células de localização estão ativos em diferentes ambientes, ao passo que todos os neurônios-grade parecem estar ativos em qualquer lugar. Então como o mapa espacial geral codificado por esses neurônios é transformado em mapas específicos do ambiente (ou do contexto) codificados pelas células de localização?

A descoberta dos neurônios-grade também atesta que o hipocampo e o lobo temporal medial são sistemas-modelo excepcionais para entender como o cérebro constrói representações cognitivas do mundo exterior que não estão vinculadas à estimulação sensorial. Não existem padrões de pontos para referências visuais, auditivas ou somatossensoriais que pudessem fazer um neurônio-grade disparar de maneira tão clara em qualquer ambiente. Esse padrão de disparo – que é similar quando o rato está num cômodo familiar iluminado ou num local estranho e escuro – deve ser um construto puramente cognitivo. Embora os padrões de disparo dos neurônios-grade sejam atualizados e calibrados por aporte sensorial vindo principalmente dos sistemas vestibular e visual, eles não dependem de sinais sensoriais externos.

Alguns defendem que as células de localização hipocampais também são independentes. Mas a conhecida influência dos pontos de referência externos sobre elas e sua tendência de disparar em locais isolados levaram alguns pesquisadores a argumentar que as células de localização são alimentadas primordialmente por combinações únicas de pontos de referências sensoriais existentes em locais particulares. Esse argumento não explica os padrões de disparo das células-grade.

Como então explicar a dinâmica do funcionamento dos neurônios-grade? Talvez essas células permitam que um animal atualize constantemente sua localização física em seu mapa cognitivo interno por meio do registro contínuo dos próprios deslocamentos. Essas informações são transmitidas ao hipocampo, que combina a representação espacial com outros dados sobre um evento para criar memórias específicas e únicas – a habilidade que Lenny, de Amnésia, havia perdido.

A descoberta dos neurônios-grade mudou a forma como entendemos os processos de formação da memória. As novas evidências que devem surgir nos próximos anos certamente revelarão outras facetas desse fenômeno vital que é a base de nossa identidade.

Para conhecer mais

Beyond the cognitive map. A. David Redish. MIT Press, 1999. Disponível em www.mitpress.mit.edu
Microstructure of a spatial map in the entorhinal cortex. Torkel Hafting et al., em Nature, vol. 436, págs. 801-806, 2005.
Conjunctive representation of position, direction, and velocity in entorhinal cortex. Francesca Sargolini et al., em Science, vol. 312, págs. 758-762, 2006.

Dinâmica do Conhecimento

Leitura Dinâmica

Estudos sobre neuroplasticidade levantam questões sobre a responsabilidade da cultura, do meio e da educação na constituição de indivíduos. Há influências também de aspectos orgânicos.

Revista Scientific American – por Mauro Muszkat

Todo conhecimento científico cria conceitos muito particulares sobre a maneira de encararmos a nós mesmos, nosso cérebro e o mundo que nos cerca. Somos ao mesmo tempo sujeito e objeto dessa observação. Além de modelos teóricos, a ciência construiu visões ideológicas do cérebro a respeito da visão do Universo.

As metáforas para o cérebro e para o desenvolvimento estão em constante recriação e mudança. Na concepção medieval, marcada pela valorização do espiritual e do secular, o eu não era separado do mundo. Sem ter o privilégio de ser o centro da psique, o cérebro era visto e interpretado como massa homogênea e amorfa, um reservatório onde a energia vital armazenada nos ventrículos cerebrais, através de fluidos e humores, era transmitida para o corpo por meio dos nervos. Além de ligar os quatro elementos universais- água, fogo, ar, terra -, esse fluxo de fluidos seria responsável por nosso temperamento e comportamento instintivo.

A emergência da visão racionalista, a partir do Renascimento – que coincidiu com a criação da perspectiva na pintura e com a convergência tonal e harmônica na música -, separa o eu (self) do espaço newtoniano que o circunda (ambiente) e apresenta o mundo do previsível, métrico e facetado, em suas relações múltiplas de causa e efeito. Essa visão teve seu apogeu em Descartes, no século XVII. Para o filósofo francês, o cérebro, considerado máquina e mecanismo, abrigaria em seu pequeno centro geométrico (a glândula pineal) a sede da alma, o fantasma na máquina. Tal qual um relógio que sincronizava nossas engrenagens como funções superiores independentes, o cérebro cartesiano refletia e traduzia o mundo mecanicista e determinista do homem ocidental.

A passagem do dualismo entre corpo e alma proposto por Descartes para o reducionismo científico, que busca no cérebro todos os centros da vida psíquica, tem sua grande metáfora no século XIX com a frenologia. Para os frenologistas, o cérebro era compartimentalizado em várias áreas, abrigando desde as diferentes funções psíquicas aos comportamentos humanos mais sutis. Haveria uma localização cerebral específica até para o amor ao vinho e aos animais. Tal visão foi acentuada pela ideologia tecnicista que a partir da Revolução Industrial dominou o pensamento científico. O cérebro, centro de poderes de uma linha de montagem, rede de conexões fixas – como linhas telefônicas conectando por meio de fios (os neurônios) as distintas regiões cerebrais – com áreas de comando (executivas) e subalternas (automáticas), era reflexo dos modelos da sociedade industrial mecanizada, hierárquica e frenológica do início do século XX. O advento dos computadores ampliou a metáfora mecanicista do cérebro como grande e potente gerenciador cibernético. Neste modelo, a consciência e as funções psíquicas não passam de um filme sensorial no teatro cartesiano da mente, onde impressões são coletadas e armazenadas como um software por um eu (hardware) construído e gerenciado pelas próprias sensações.

Atualmente, depois do intenso desenvolvimento das neurociências e da ciência cognitiva, o cérebro passou a ser visto mais como um ecossistema que uma máquina. No cérebro ecológico, os próprios neurônios vivem em situação de competição e organização pelo estímulo e direcionamento do ambiente, num quase neodarwinismo neuronal, citando uma imagem do fisiologista Gerald Edelman. É o cérebro que não dicotomiza o que está fora daquilo que se auto-organiza; cérebro autopoético, orgânico, fluido e modular.

Nesse novo paradigma, a palavra de ordem é plasticidade: os 35 mil genes associados ao cérebro confrontam-se com os trilhões de sinapses sujeitas à modulação e à mediação ambientais. Há competição por substrato entre os vários neurônios, e as células neuronais se diferenciam dependendo da necessidade e do local em que se encontram com suficiente, diversidade e fluidez para fazer emergir uma mente autônoma e auto-reflexiva da própria estrutura cerebral e de suas múltiplas conexões.

• Plasticidade e Desenvolvimento

Os novos paradigmas criam mais fronteiras que separações entre os conceitos de desenvolvimento e neuromodulação. Conceitos antes polares passam a ser circulares e recursivos. A idéia de desenvolvimento humano, por exemplo, não pode ser vista de maneira desvinculada das noções de aprendizagem.

Desenvolver, no sentido cognitivo e orgânico, significa estabelecer uma relação de aprendizagem, troca e comunicação intensa entre o organismo e o ambiente no qual esse organismo vive e para o qual se direciona. A aprendizagem requer crescimento e formação de novas conexões sinápticas, crescimento de espículas dendríticas, mudança de conformação de macroproteínas das membranas pós-sinápticas, aumento dos neurotransmissores, neuromoduladores e das áreas sinápticas funcionais. Essas etapas ocorrem durante todas as fases, desde o registro e aquisição da informação até seu armazenamento e evocação (memória).

A plasticidade cerebral pode ser definida como mudança adaptativa na estrutura e função do sistema nervoso, como atividade de interações com o meio interno e externo, ou ainda como resultado de lesões que afetam o ambiente neural. É um fenômeno multidimensional, um processo dinâmico que delimita as relações entre estrutura e função, uma resposta adaptativa impulsionada por desafios do meio ou lesões e estrutura organizacional intrínseca do cérebro. Este se mantém ativo, em diferentes graus, durante toda a vida, até na velhice.

A plasticidade opera em vários níveis: neuroquímico (na modificação de neurotransmissores e neuromoduladores durante o crescimento e desenvolvimento); neural, envolvendo diferentes padrões de conexão entre os neurônios e o número de sinapses ativas, e comportamental, alterando estratégias cognitivas de acordo com desafios ambientais. No decorrer do desenvolvimento infantil, diferentes expressões do potencial de mutabilidade do cérebro pela experiência ocorrem. Assim, dizemos que a plasticidade se insere na perspectiva maturacional, assim como o próprio desenvolvimento.

A visão neurobiológica tradicional acreditava que neurônios centrais, uma vez lesados e perdidos, não seriam mais repostos ou produzidos. No entanto, essa concepção tem sido superada pela evidência de que há produção de novas células neuronais mesmo durante a idade adulta em algumas áreas específicas do cérebro, formando verdadeiras “ilhas proliferativas”. Localizadas no giro denteado do hipocampo, nas regiões periventriculares e em algumas células de epitélio sensorial relacionado a olfato, audição e reflexos vestibulares (relacionados à posição da cabeça e ao equilíbrio postural), essas ilhas mantêm-se ativas no curso do desenvolvimento.

A diferenciação por linhagem dessas células germinativas depende de influências do local, da estimulação sensorial recebida e de fatores ligados ao microambiente molecular relacionado a essas células. Assim, células neuronais embrionárias de diferentes linhagens migram para áreas distintas de sua origem, modificando sua função de acordo com a estimulação recebida. Como resultado, conexões capazes de recuperar vias comprometidas por eventos disruptivos são refeitas. A falha na migração celular dessas células embrionárias tem sido relacionada à fisiopatologia de diferentes distúrbios neurológicos e neuropsiquiátricos como o autismo, a dislexia e algumas formas de epilepsia.

As células-tronco são células embrionárias cuja linhagem pode ser sanguínea (medula óssea, cordão umbilical, sangue periférico), muscular (células satélite), mesenquimal ou conjuntiva (medula óssea), neural (bulbo olfatório) ou embrionária (células germinativas). As limitações de natureza ética foram bastante restritivas em relação às pesquisas com essas células. Experiências em humanos com células-tronco retiradas da medula óssea e cultivadas em laboratório com substâncias neurotróficas que as transformam em neurônios estão sendo realizadas em pacientes com doenças neurodegenerativas, mas os resultados ainda são bastante preliminares. Tais técnicas não estão isentas de complicações como o desenvolvimento de doenças auto-imunes e endocrinológicas, da formação de tumores, e da necessidade de imunosupressão e antibioticoterapia a longo prazo. O transplante de células-tronco num futuro próximo irá revolucionar as neurociências pelo potencial de reposição neuronal, de modulação da produção de fatores de crescimento neuronal e de aumento da atividade de neurônios remanescentes em casos de lesão cerebral localizada, incluindo lesão medular, traumatismo craniano e doenças metabólicas e neurodegenerativas.

• Reorganização neural

O conceito de período crítico, além de referir-se aos eventos específicos do desenvolvimento neuronal (fases de migração celular, diferenciação celular, mielinização, aumento do número de conexões sinápticas, multiplicação de células gliais ou formação de estruturas), baseia-se na constatação de que os processos de desenvolvimento cognitivo são alterados mais facilmente ou de forma mais permanente dependendo do momento em que ocorre um evento disruptivo. O período crítico relaciona-se, portanto, a uma janela temporal mais suscetível a transformações neurais, ao potencial cerebral de flexibilidade e reorganização.

Axônios no cérebro imaturo têm grande capacidade de crescimento e arborização dendrítica. Tal capacidade é modelada e em cada fase do desenvolvimento há períodos sensíveis nos quais tal modelagem é mais ativamente realizada. Essa lapidação depende da idade, e em experimentos animais de privação visual por oclusão em animais, mesmo após a estimulação visual ser restabelecida, se o período de privação visual exceder a idade de 1 ano, a visão não poderá ser restituída. O mesmo ocorre em crianças que sofrem de catarata. A intervenção cirúrgica tardia, além de não restituir a visão, associa-se a um prejuízo de toda cognição espacial que pode ser comprometida de modo permanente se a cirurgia demorar para ser realizada, ultrapassado o período crítico.

Este se relaciona ao que ficou popularmente conhecido como “janela de oportunidade”, isto é, a fase ideal durante a maturação para o desenvolvimento de habilidades, sejam elas o aprendizado de matemática, de línguas ou musical. Tais fatores têm aberto um campo promissor da chamada neuropsicologia cultural, como os modelos de plasticidade musical relacionada a experiências diversas como as diferenças funcionais e estruturais marcantes no cérebro de músicos e de não músicos.

A duração e o período crítico de maior expressão da neuroplasticidade relacionam-se a múltiplos fatores, e a superprodução de sinapses durante o desenvolvimento cortical é sem dúvida determinante. Desenvolvimento e superprodução de sinapses (sinaptogênese) bem como a eliminação de sinapses e neurônios (apoptose) ocorrem de maneira distinta nas várias áreas cerebrais, nas diversas fases de seu amadurecimento. Assim, por exemplo, no que se refere ao córtex visual, ocorre um surto de sinaptogênese entre o terceiro e o quarto mês de vida, com pico máximo aos 4 meses de idade. A sinaptogênese da região pré-frontal, por sua vez, relacionada com funções de planejamento e flexibilidade mental, prolonga-se atingindo um máximo de densidade sináptica por volta dos 3 anos e meio. O curso de eliminação sináptica na região frontal média se dá tardiamennte (por volta dos 20 anos) frontal quando comparado com as áreas visuais.

Alguns autores sugerem que o período crítico de recuperaação da linguagem após lesão cerebral dominante seria a idade de 12 anos. Outros pesquisadores consideram, principalmente em razão de resultados de avaliações de crianças após hemisferectomia esquerda, que se trata de uma previsão muito otimista, uma vez que os efeitos clínicos da recuperação da linguagem, com relocação para o hemisfério não dominante, geralmente não excedem os 5 anos.

• Aprender a compensar

É conhecida a intensa cooperação e atividade compensatória entre as várias áreas cerebrais relacionadas às funções perceptivas – visão, audição e tato. Em pessoas cegas, na ausência do estímulo visual, existe uma verdadeira relocação funcional e topográfica do processamento táctil e auditivo. Tal deslocamento pode estar traduzindo o recrutamento, a manutenção e estabilização de circuitos córtico-corticais (conexões entre áreas do córtex) presentes no recém-nascido que são posteriormente eliminados durante o desenvolvimento sensorial normal. No recém-nascido o sistema sensorial é menos localizado, mais redundante, menos diferenciado e altamente adaptativo, com circuitos de ida e volta entre as várias áreas sensoriais primárias. Tal fato pode levar-nos a supor que a experiência sensorial de crianças pequenas seja na verdade mais integrada e sinestésica (mais redundante e menos especializada topograficamente) que nas crianças maiores e nos adultos. Em deficientes auditivos há melhor desempenho em provas de detecção de estímulos visuais de direção e movimento que em indivíduos com audição normal. Essa sensibilidade é maior para estímulos periféricos que centrais.

Estudos com ressonância nuclear magnética funcional (fRMI) mostram maior conexão das áreas posteriores e parietais do cérebro nos deficientes auditivos. O efeito movimento é, portanto, mais proeminente que o efeito cor, uma vez que a cor envolve circuitos do córtex temporal inferior, menos propenso à plasticidade A aquisição de linguagem de sinais por surdos leva a uma melhora não só na capacidade de comunicação como também no desempenho de habilidades visuoconstrutivas, capacidade de rotação mental de objetos ou de percepção de objetos em apresentação não-convencional (por exemplo, de ponta-cabeça). Enquanto indivíduos normais têm preferência hemisférica direita para o processamento de movimentos e gestos, surdos que se comunicam por linguagem de sinais apresentam preferência hemisférica esquerda para a mesma atividade. Assim, o aprendizado da linguagem de sinais reorganiza o cérebro para funções visuoconstrutivas e motoras.

Nos casos de pessoas com deficiência visual, há aumento da discriminação auditiva principalmente se a fonte de estímulos estiver perifericamente localizada. Na privação de estímulos visuais ocorre uma alocação topográfica intensa dos processos auditivos (temporal) e tácteis (parietal) para as áreas originariamente visuais do cérebro. Estudos com tomografia por emissão de pósitrons (TEP) em deficientes visuais durante leitura em braile mostram ativação metabólica cerebral em áreas occipitais, portanto não originalmente tácteis, mas visuais. Interessantes pesquisas em biotecnologia médica têm sido realizadas sobre a reconstrução e transformação de imagens bi e tridimensionais em estímulos tácteis que seriam processados pelos deficientes visuais a partir do tato.

• Lesão cerebral na infância

A topografia das alterações de linguagem que decorrem de lesões do hemisfério esquerdo é bastante distinta na criança. Adultos com lesão na área temporal posterior, por exemplo, têm déficit de compreensão da linguagem, ao passo que, em crianças, lesões nessas mesmas áreas resultam em dificuldades articulatórias da fala. O desenvolvimento da linguagem, em crianças de 10 a 17 meses, parece estar mais precocemente comprometido em lesões do hemisfério direito, associado a dificuldades na comunicação gestual e expressiva. No período dos 18 aos 31 meses, lesões à esquerda produzem apenas discreto atraso no vocabulário. No período pré-escolar, a maioria dessas crianças tem domínio léxico e morfossintático dentro da faixa normal, e apenas algumas delas mantêm déficit linguístico sutil. A idade inicial de exposição à linguagem, portanto, desempenha importante impacto no desenvolvimento posterior dessa função.

Crianças chinesas bilíngues com exposição tardia ao inglês apresentam mais dificuldade nas funções gramaticais que nas semânticas, demonstrando variação na plasticidade no que se refere a esses componentes da linguagem. No que diz respeito à cognição espacial, é conhecido o paradigma de especialização hemisférica segundo o qual adultos com lesões do hemisfério esquerdo têm dificuldade na distinção de detalhes, mantendo-se a configuração global dos estímulos, enquanto lesões do hemisfério direito comprometem os padrões globais de percepção e síntese visual. A análise do desenho de figuras simples mostra que esses paradigmas parecem persistir em crianças pequenas com lesão cerebral lateralizada. No entanto, quando se requer desempenho como a reprodução de figuras mais complexas, observa-se que a dificuldade na síntese de detalhes e configurações ocorre em lesões em ambos os hemisférios. Existe melhora progressiva na adolescência, mas a persistência de padrões espaciais disfuncionais é mais comum que a observada na linguagem. Nesse sentido, de certa forma a cognição espacial é menos suscetível à plasticidade que a linguagem.

No que se refere ao desenvolvimento afetivo, estudos que utilizam a resposta de expressões faciais a emoções positivas e negativas mostram que crianças com lesão no hemisfério esquerdo apresentam expressão apropriada, enquanto aquelas cuja lesão está no direito mostram disfunção na expressão de emoções positivas. Tal descoberta confirma o predomínio do hemisfério direito na modulação do comportamento emocional de crianças. Além disso, parece atestar que as estruturas filogeneticamente mais antigas, como as ligadas às emoções, podem na verdade ser menos suscetíveis à neuromodulação.

• Multidisciplinariedade

Mesmo com todo o desenvolvimento da neuroimagem funcional, os conhecimentos da neuropsicologia do desenvolvimento infantil ainda aliam-se fortemente às avaliações quantitativas e qualitativas. Dependem, sobretudo, do trabalho de comunicação entre profissionais de diferentes áreas da saúde (medicina, psicologia, fonoaudiologia) que atuam conjuntamente para a construção de um olhar unificado que transcenda tanto o reducionismo mente/cérebro quanto o empirismo cérebro/mente.

É importante ressaltar, ainda, que no estudo neuropsicológico do desenvolvimento devem-se levar em conta variáveis além da natureza neurobiológica, como fatores sociais e culturais. Essas variáveis, embora múltiplas, podem ser deterrninantes na modificação das respostas cerebrais nas várias fases do ciclo do deesenvolvimento infantil. Atualmente existe urna corrente bastante forte da chamada neuropsicologia cultural, que busca unificar a subjetividade e diversidade dos fenômenos da cultura com a maior determinação e reprodutibilidade da neurociência.

As mudanças nos conceitos de modulação cerebral, reorganização funcional e sináptica do cérebro pela experiência e aprendizagem pressupõem que novas formas de ensino e estimulação inovadoras deverão ser formuladas para possibilitar as melhores estratégias para as várias disfunções. Os desafios da educação da criança nos dias de hoje requerem uma verdadeira revolução das formas de olhar, interagir e construir o conhecimento em bases flexíveis, sujeitas às múltiplas mediações. Para tanto, devem-se considerar as características dinâmicas e modulares do cérebro, a especialização funcional e as relocações da rede neuronal, assim como a cooperação intermodalidades, desde o nível sensorial até o da organização de funções cognitivas complexas (como memória, atenção e linguagem, responsáveis pelo comportamento adaptativo e criativo intrínseco à comunicação humana).

Assim, acreditamos que a necessidade de substituir a escola tradicional conteudista e segregacionista por uma mais formativa, aberta, que respeite e integre as diferenças, é talvez o maior desafio do sistema educacional moderno. Tal processo demanda cooperação entre os serviços de educação, o sistema de saúde e a universidade, articulando os novos conceitos oriundos das neurociências e da experiência em reabilitação cognitiva nos vários transtornos neurológicos e neuropsiquiátricos. Há uma busca pela compreensão mais abrangente possível das formas de expressão e adaptação às diferenças cognitivas e comportamentais da criança durante o curso do neurodesenvolvimento, Neste sentido, tais abordagens devem ser avaliadas através dos paradigmas científicos para não correr o risco de tornar apenas instrumentos ideológicos e pouco aplicáveis à realidade. É importante sempre lembrar que o desenvolvimento e a plasticidade cerebral se dão de maneira singular, e mesmo distúrbios semelhantes funcionalmente podem manifestar-se de múltiplas formas em diferentes pessoas.

• Reflexão e responsabilidade

Os novos paradigmas da plasticidade devem nortear nosso olhar para o neurodesenvolvimento. Um olhar que, como no quadro acima do pintor espanhol Juan Miró integra formas complementares e ambíguas, imagens insólitas e oníricas. A abertura da avaliação do desenvolvimento infantil é, em última análise, a possibilidade de valorização do conhecimento fluido no qual fatores estruturais e ambientais são variáveis indissociáveis dentro do perfil neuropsicológico.

O sentido da plasticidade leva-nos também a uma reflexão profunda sobre a responsabilidade que têm a cultura, o meio e a educação na construção de organismos funcional e estruturalmente diferentes, Em que medida, por exemplo, a estimulação visual e motora excessivamente reflexa (jogos de videogame e computador) leva nossas crianças a uma hiperconexão de circuitos automáticos que as predispõe a um comportamento impulsivo? De que maneira a exposição precoce à violência, banalizada e visualmente exposta nos veículos de comunicação, não favoreceria a deflagração de circuitos amigdalianos e límbicos relacionados a reações de pânico e depressão as quais poderiam relacionar-se ao índice crescente desses mesmos distúrbios em fases cada vez mais precoces?

Recuperar os fenômenos em sua circularidade é resgatar o sentido unificado que permeia organismo, ambiente e cultura. As novas dimensões do estimular, criar e fazer são também novas dimensões neurobiológicas do ser.